Se Tudo ou Nada me pudesse definir,
Tudo seria imperfeito e Nada seria interessante.
Tudo seria incompreensível,
e Nada seria poético.
Mas que te diz isto a ti, que, acidentalmente, encontraste este insignificante devaneio meu, que intencionalmente atirei de uma ponte qualquer desta cidade, enquanto procurava algo de valor incalculável que perdi e que, aparentemente, me faz falta? Podes encolher os ombros e satisfazer a tua curiosidade inata, ou aproveitar já para descartares mais uma coincidência que não retratará nada de relevante, e que não te trará maior felicidade.
Felicidade é coisa que procuro há muito tempo e por isso, convicto de que o universo me ouça (desculpa a falta de originalidade, que aparentemente já nasceu comigo), vou ser o mais sincero possível (algo a que não estou habituado). Aviso desde já que “Eu” e “Ela” são o par de conceitos a que me vou dedicar nesta minha reflexão, se bem que nem eu próprio os compreenda por completo.
Primeiramente, “Ela” é apenas um pronome pessoal tão próximo do “Eu”, como tão próximos estão três estranhos, numa viagem nada demorada, aglomerados num transporte público qualquer, como neste em que me encontro, enquanto escrevo esta inutilidade (apesar de estar muito mais solitário do que esses três estranhos, e de ter muito mais tempo para divagar sobre os meus problemas, bem como nas hipóteses de entrar num transporte público vazio, enquanto aprecio a simpática companhia do motorista há cerca de meia hora).
Da mesma forma, ” Ela ” é apenas um pronome pessoal que não a pode substituir minimamente ( o que me deixa frustrado e com longas dores de cabeça). Tão pouco serve para a representar (o que me assombra e incomoda), pois nada do que ela é poderá alguma vez caber em “Ela”, enquanto que “Eu” e eu parecemos irremediavelmente feitos um para o outro.
E nisto, paro de reflectir para ver como a paisagem está sempre a mudar. O vidro transforma a realidade, tornando possível absorver o azul aquático de uma frescura ameaçadora, que prende a minha respiração ao vidro húmido, esborratando o reflexo do exterior afogado no anoitecer. O mundo fica monocromático, simples. Todo o mundo. Exceto o meu. E foi nesse momento que deixei de saber ao certo para onde queria ir e me apercebi que tudo o que o “Eu” é me deprime.
O “Eu” é um autêntico pedaço de nada, que nunca sequer tentou ser melhor do que eu. É um falhanço emocional e físico-motor. Isto, porque não tem impulsos para nada. Apenas reflexos para tudo. Mas se o julgo um fulano incrivelmente inútil e fraco, só demonstra que devo preocupar-me com ele mais do que ninguém.
Sou consciente e tenho escrúpulos, mas a única coisa que o “Eu” tem é um ego vacilante que o acorda todas as manhãs. E neste estado de espírito, neste estado de consciência, aparentemente não nos damos nem muito, nem pouco; nem bem, nem mal. Resumindo, não nos compreendemos. Há muito que estou cansado e sonolento nos confins deste miserável “Eu”, à espera que a cada dia, a cada segundo, os meus átomos sejam transportados para o dia que se segue. Mas pior que o “Eu”, só mesmo “Ela”.
“Ela” é furtivamente omnipresente. Um Mundo sem “Ela” seria uma boa opção para alguém como o “Eu”. “Ela”, e tudo o que faz parte da sua existência, é-me incompreensível e choca comigo em irónica demasia. “Ela” representa, entre outras coisas, o meu limite adornado de escarninho, a minha falta de astúcia indiscutível, uma equação de respostas insuficientes. Ninguém faz ideia das vezes em que sou cercado por logicamente intermináveis analogias, antíteses e metáforas entre o “Ela” e o “Eu”.
A hostilidade irracional do “Eu” emerge quando este é vencido e/ou derrotado. De certa forma, até entendo a razão de ser da amargura dele, pois entendo a dificuldade latente na procura de uma resposta racional e astutamente inalcançável em tão poucos segundos.
Mas então interrompem-me o pensamento os dois corpos, o meu e o dela, que, estáticos e entrelaçados no turbilhão de si mesmos, teimam em mundos paralelos: eu assente no meu assento. Ela assente nos seus pés. E nada mais do que isto foi necessário, pois algo mais não faria sentido no meu futuro, apenas o encontro dos olhares pensativos das personagens, do “Eu” e do “Ela”, para que ambos, o “Eu” e eu, constatássemos:
E os Deuses choram,
E os Céus choram,
Em uníssono com os demais.
Todos vós chorais,
Enquanto Ela chora.
Ao mesmo tempo que a mais calorosa pluviosidade que já se viu ocorria, deu-se também uma estranha metamorfose em mim. Renasci a uma velocidade incrível e ambígua, a qual me trespassou límpida e silenciosamente. Uma sensação arrepiante de incredulidade, acompanhada pelo sonoro ribombar de algo contra as minhas costelas, que parecia querer explodir em sintonia juntamente com os meus ouvidos. Não consegui contar os segundos, mas sei que foram raros, enquanto aquela, imóvel numa paragem qualquer, tão bem acompanhada como eu (apenas por uma lágrima congelada no lado esquerdo de um semblante, que tanto o “Eu” como eu pensávamos ser de natureza inquebrável), era substituída por um panorama constantemente renovável.
Visto isto, apercebo-me de tudo à minha volta, e tudo parece estranhamente deixar de parecer impossível. Pergunto-me por que razão estou enraizado no mais recôndito e inóspito canto do “Eu”, quando podia estar a beber o oceano do Mundo, qual lunático em pleno voo?
Mas, então, ela some-se do sonho. A adrenalina de há momentos ainda pulsava no meu sistema, enquanto me interrogava. E os meus olhos de âmbar ainda chispavam centelhas vívidas, provocadas pelo género de momento que nunca perdura por tempo inalcançável.
Fez-se silêncio. E a paisagem mudou, prendendo-me entre o real e o surreal, novamente.
De repente, reparei, incrédulo, que o “Eu” boiava em surdina, sobre um mar cujo azul parecia ter sido engolido pelo breu. Boiava sob um céu de inverno cujas nuvens indelicadas pareciam não fazer questão de libertar o Sol. Soltou um suspiro de sobrolho carregado, pensativo (o único vestígio que provava que não me encontrava na presença de um cadáver). E numa complexa paisagem irrealista, flutuávamos os dois, costas com costas, mais próximos do que nunca, talvez até em concordância. As minhas especulações e os meus cálculos tomaram forma nas nuvens e nos céus, mostrando-me frutíferos arquipélagos, massivos continentes e enigmáticas constelações, quando o “Eu” trouxe à tona a realização com que fui obrigado a anuir, tendo desta forma desistido de todas as minhas elaboradas teorias. O “Eu” acabou com o tumulto ensurdecedor de todos os confins e horizontes palpáveis, cujo único criador se emparvecia isolado, ao constatar a plenos pulmões, com a força do anterior cenário degradante, que tamanha enchente, tamanha torrente, tinham sido criadas por “Ela”, por simplesmente “Ela”, apenas.
Bloqueei por completo. Até que dos meu lábios inspirados, sarrabiscando na expiração profunda, da qual me socorri para me libertar da massiva gaiola de pensamentos, se ouviu:
Pois então, se Tudo fôssemos,
Nada mais que humanos seríamos.
Mas se Nada continuássemos a ser,
Os Deuses, Os Céus e tantos mais chorado haviam em vão.
Torci o nariz. Não era esta a simples resposta que procurava obter como máxima das conclusões. Pois no fundo, bem lá no fundo, sempre havia pensado que era capaz de melhor. Então, indignado por viver sempre em frustração, levantei-me a tempo de sair, justamente na minha paragem, quando sussurrei, de lábios trémulos com o choque da temperatura exterior:
Nada Sou se Ela Tudo não for.
Tudo Sou quando Ela Nada é.
Mas de que Me serve Tudo ou Nada ser,
Se Tudo isso apenas Oceanos fizer erguer?
EU
